Sobre a Commedie

  Colombina e Arlequim  

     Da arte, o que nos resta é o popular.
     Essa verdade foi a primeira coisa que aprendi, descendo amarga pela garganta, quando saí por ai pesquisando sobre arte. Posso brincar com nomes estrangeiros, com a segunda pessoa do singular, com o português levemente arcaico da minha narrativa, mas empinar o nariz, na realidade, tem nada ou muito pouco a ver com arte.
     O erudito de hoje sempre foi, um dia, o que circulava pela voz do povo e esta regra vale praticamente para tudo que me tira o fôlego. Literatura, música, pintura... o próprio cinema se quisermos ser mais práticos.
      O teatro que hoje nós assistimos (seja na televisão aberta ou no finíssimo teatro municipal) não poderia deixar de ser rotineiro, algo que na essência vem do dia-a-dia e do retrato da época que ele ilustra.
     A comédia Del’art pode muito bem ser descrita como um teatro popular.
     Foi um teatro pobre, feito de improviso nas estradas européias do século XVI. Foi inovadora, pois não podia arcar com o preço de regras e o boca-a-boca criava seus personagens. Personalidades tantas, escritas por tantos e com tantas divergências que pesquisá-las foi algo relativamente difícil para mim.
     Não fiquei, porém, quebrando muito a minha cabecinha loira com nomes, datas e barbarismos... Verás que do estudo prático desse teatro eu pouco uso nesse meu projeto. Escrevo essa dissertação por pura e espontânea surpresa.
     -Quem é Pierrot? Quem é Arlequim?
     Várias vezes desde que comecei esse projeto ouvi estas perguntas e muito as estranhei. Pensei estar eu a falar de personagens populares, personagens de brincadiras infantis, personagens que pertenciam a todos.
      Não é bem assim...
      Mesmo que minha cultura geral se limitasse a nomes e características, por mais que eu tenha evitado me aprofundar em estudos, quero passar o mínimo que aprendi sobre esses personagens. Não ouso sonhar, entretanto, em traduzir a emoção que sinto com máscaras e bailes para aqueles que não sofreram com essa luxúria na infância.

     Uma coisa muito interessante é que, diferente de outros tipos de teatro, essas pantomimas tinham um roteiro muito simples. Algumas linhas Colombinapenduradas na parede dos bastidores ou costuradas nos punhos dos atores mais distraídos. Este não era apenas um improviso, algo que você já fez em alguma prova de sua vida, mas uma grande vantagem para atores em permanente deslocamento por regiões de línguas e costumes diferentes. Os comediantes podiam, em apenas poucos dias, se adaptar aos sotaques e gírias locais, além das condições culturais da platéia.
      É importante lembrar que com um roteiro a base de mímicas e improviso as trupes poderiam se apresentar para qualquer público, de uma praça boca-suja até o baile mais principesco.
      A Comédia Del’art, porém, não era uma sucessão de palhaçadas desmedidas. Ela absorveu das antigas comédias recursos teatrais: o encaminhamento de uma intriga com unidade de tema e determinada tipologia de personagens; criados indiscretos e cortesãs do imaginário popular.
     Foi incorporado protótipos de atitudes, gestos, vestimentas, modos de falar e uma linha de atuação que era mantida de espetáculo em espetáculo.
      Além disso, a comédia Del’art foi a primeira atuação realmente profissional, pois as trupes de atores viviam unicamente da renda conseguida nas apresentações. Estas peças eram feitas em várias cidades, sendo trazidas em carroças e encenadas atrás de toldos e palcos improvisados.
      Os roteiros falavam, geralmente, sobre amores cruzados e sobre a relação dos zannis, os criados. Fofocas, trapaças e confusões financeiras. Não poderia esquecer de citar triângulos, quadrados, trapézio e tantas outras formas amorosas. Estas personagens marcavam o imaginário popular, tal como o Capitão (simbolizando os soldados Espanhóis), o Doutor (representando o burguês) e os criados que até hoje brincam com os desejos e características dos seres humanos.
      A Colombina simboliza a mulher perfeita, o ideal perfeito de mulher; sedutora, mas inspiradora, alguém cuja máscara se adequa para o homem que a quisesse. Arlequim é o eterno sedutor, o eterno enganador, o sexy, o bem humorado, uma personificação do desejo carnal. Enquanto Pierrot simboliza o poeta, o romântico e sensível, freqüentemente tolo poeta.
      É com este tipo de figuras que se move a Comédia Del’art, todos estes papéis caracterizados por máscaras próprias de cada ator. Roteiros populares, mas regidos à música, gestos e máscara ocultando a expressão facial dos atores com narizes enormes e sobrancelhas grossas de papel machê.
      Uma distração, uma comédia, mas ainda assim o princípio de muitas artes. Personagens que traduziram influências históricas e marcaram tanta coisa no imaginário popular que deviam mesmo é ser ensinados na escola.
      Não quero mais ouvir me perguntarem quem é que foi o Pierrot, porque isso, caro leitor, é triste demais...

 

     Aproveito para lhes deixar um belíssimo fragmento do poema de Menotti del Picchia sobre o triângulo entre Pierrot, Colombina e Arlequim.
     Eu quase chorei enquanto procurava informações escolares e me deparei com um dos poemas mais belos já escritos... Claro que depois disso todo o lirismo que eu imaginava manter nesse projeto escorreu como areia em cada verso.

          Máscaras

(...)
“Um silêncio cheio Dois Pierrots tristonhosde frêmito. Os lírios tremem. Pierrot olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura, toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído, as cordas que gemem. 
ARLEQUIM - Linda viola. 
PIERROT, alheado - Bom som... 
ARLEQUIM -Que musicais surpresas não encerra a mudez  destas cordas retesas... Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferença nenhuma.  Questão de dedilhar, com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d’alma! 
Suavemente, exaltando-se - O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emoção acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda...  À vaga orquestração da frase que sussurra ver um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até alcançar a boca e escutar, num arquejo, o  universo parar na síncope de um beijo! 
...
Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criação da minha alma de artista.  Compreendes? 
(...)

PIERROT  - Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas triste como um cântico... 
ARLEQUIM, sarcástico - Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso. 
PIERROT - Debochado Arlequim! 
ARLEQUIM - Branco Pierrot tristonho... 
PIERROT  - Teu amor é lascívia! 

ARLEQUIM  - E o teu amor é sonho... 
PIERROT  - É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho.... 
ARLEQUIM, escarninho - Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots? 

PIERROT  -  Não! A todos os que amam!  Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na caríciaPierrot...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do cresce
(...)

ARLEQUIM, soturnamente - A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!.. 
COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão - Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço: 
A Arlequim:  O teu beijo é tão quente...                         

A Pierrot:  O teu sonho é tão manso... 
Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!  Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho! 
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra! 
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade... 
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente, 
porque a história do amor pode escrever-se assim:  

PIERROT - Um sonho de Pierrot... 
ARLEQUIM - E um beijo de Arlequim!”

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